Quem convive com gatos provavelmente já presenciou uma cena curiosa: o animal se aproxima de um local, cheira atentamente e, logo depois, permanece alguns segundos com a boca entreaberta e uma expressão que parece estranha.
Esse comportamento pode revelar muito mais do que uma simples reação a um cheiro forte.
Um estudo realizado por uma equipe internacional de pesquisadores indica que os gatos conseguem obter informações sobre outros felinos a partir de compostos presentes na urina. A pesquisa identificou uma combinação de substâncias que varia de um indivíduo para outro e pode funcionar como uma espécie de assinatura química.
A descoberta ajuda a explicar como os felinos reconhecem quem passou por determinado território mesmo quando o outro animal já não está mais no local.
Uma espécie de identidade formada pelo cheiro
Os pesquisadores analisaram os compostos presentes na urina dos gatos e identificaram 13 tipos de ácidos graxos de cadeia ramificada.
O ponto mais interessante não está apenas na presença dessas substâncias, mas na combinação entre elas.
Os tipos e as proporções desses ácidos podem variar de um gato para outro, criando um perfil químico particular para cada indivíduo.
Isso significa que, ao investigar o cheiro deixado por outro felino, um gato pode estar recebendo informações que ajudam a determinar se aquele odor pertence a um animal conhecido ou desconhecido.
Para os humanos, a diferença pode passar completamente despercebida. Para o sistema olfativo dos gatos, porém, essa mistura de compostos representa uma quantidade muito maior de informações.
Por que o cheiro permanece por tanto tempo
Outro aspecto importante da descoberta está nas características químicas dessas substâncias.
Os ácidos graxos identificados pelos pesquisadores são considerados semivoláteis. Em termos simples, isso significa que eles não desaparecem imediatamente depois que a urina evapora.
Como permanecem no ambiente por mais tempo, esses compostos podem continuar transmitindo informações mesmo horas depois de o animal ter passado pelo local.
Esse mecanismo é particularmente útil para espécies que utilizam cheiro para comunicar presença ou marcar território.
Um gato não precisa necessariamente encontrar outro animal frente a frente para saber que ele esteve por perto.
O ambiente guarda pistas.
A estranha expressão que os gatos fazem ao sentir certos cheiros
O estudo também ajuda a compreender melhor um comportamento conhecido como resposta de Flehmen.
Durante essa reação, o gato costuma levantar levemente a cabeça, abrir a boca e permanecer parado por alguns instantes.
À primeira vista, pode parecer que o animal está fazendo uma careta.
Na realidade, ele está direcionando moléculas odoríferas para uma estrutura especializada chamada órgão vomeronasal, que participa da identificação de sinais químicos.
Esse comportamento também aparece em outros animais, incluindo cavalos e diferentes espécies de felinos.
Os pesquisadores observaram que a resposta tende a ocorrer diante de odores que despertam maior interesse, especialmente aqueles associados a indivíduos desconhecidos.
Por isso, aquela expressão peculiar pode indicar que o gato está analisando informações presentes no cheiro com muito mais atenção.
O que os rins têm a ver com isso
A investigação trouxe ainda outra descoberta curiosa.
Os cientistas identificaram pequenas gotículas de gordura em células dos rins dos gatos. Essas estruturas armazenam lipídios relacionados aos ácidos graxos encontrados na urina.
Isso sugere que o próprio organismo possui um mecanismo envolvido na produção e no armazenamento das substâncias responsáveis pela assinatura química.
A presença dessas gotículas pode ajudar a entender por que determinados compostos aparecem de maneira consistente na urina de cada animal.
A pesquisa também abre novas possibilidades para compreender processos fisiológicos dos felinos que até hoje receberam pouca atenção.
Outros grandes felinos apresentam mecanismo semelhante
Os cientistas não encontraram esse fenômeno apenas nos gatos domésticos.
Compostos semelhantes e gotículas lipídicas nos rins também foram observados em outras espécies de felinos, incluindo leões, tigres, leopardos e o gato-de-Iriomote, uma espécie rara encontrada no Japão.
Entretanto, a composição dos ácidos graxos não é exatamente igual entre todas as espécies.
As diferenças encontradas sugerem que esse sistema de comunicação química pode ter se diversificado ao longo da evolução dos felinos.
Cada espécie teria desenvolvido uma combinação própria de substâncias de acordo com sua história evolutiva e suas necessidades de comunicação.
Por que os gatos dependem tanto do olfato
Para os seres humanos, a visão costuma dominar grande parte da percepção do ambiente.
Nos gatos, o olfato exerce um papel muito mais importante em diversas situações.
Cheiros ajudam o animal a reconhecer território, outros gatos, possíveis parceiros, alimentos e situações potencialmente perigosas.
É por isso que mudanças aparentemente pequenas no cheiro de uma casa podem provocar reações perceptíveis.
Um móvel novo, uma pessoa diferente ou até um objeto trazido da rua pode carregar odores desconhecidos capazes de despertar imediatamente a curiosidade do animal.
Da mesma forma, gatos utilizam o próprio corpo para deixar marcas químicas no ambiente.
Quando esfregam o rosto ou o corpo em móveis e pessoas, eles não estão apenas demonstrando carinho. Também estão depositando sinais odoríferos.
A urina representa outra forma mais evidente desse sistema de comunicação.
Marcação de território não significa apenas “este lugar é meu”
É comum interpretar a marcação de urina apenas como uma forma de defender território.
A realidade parece ser mais complexa.
O odor pode transmitir diferentes tipos de informação e ajudar os animais a compreender quem circula pela região.
Para um gato, uma marca química pode indicar que determinado indivíduo esteve naquele espaço recentemente.
O animal pode então reagir de maneira diferente dependendo de reconhecer ou não aquela assinatura.
Em casas com vários gatos, esse sistema pode ter importância ainda maior para a organização social.
Mesmo quando os animais convivem diariamente, cada um mantém sua própria identidade química.
A descoberta ajuda a entender melhor o comportamento felino
Pesquisas desse tipo mostram como comportamentos considerados simples podem envolver mecanismos biológicos bastante sofisticados.
Enquanto uma pessoa observa apenas um gato cheirando uma superfície, o animal pode estar analisando uma combinação complexa de moléculas e comparando aquele sinal com odores que já conhece.
A descoberta não significa que os cientistas já compreendam completamente tudo o que os gatos conseguem identificar pela urina.
Ainda existem perguntas sobre quais informações adicionais podem ser transmitidas, como idade, sexo, condição reprodutiva ou estado de saúde.
Mas identificar uma assinatura química individual representa um avanço importante.
O mundo dos gatos é muito mais cheio de cheiros do que imaginamos
Para os seres humanos, grande parte das informações deixadas pelos gatos no ambiente é invisível.
Para eles, porém, cada espaço pode funcionar como um verdadeiro mapa de odores.
O que parece apenas um cheiro qualquer pode carregar informações sobre identidade, presença e passagem de outros animais.
A nova pesquisa ajuda a explicar por que gatos dedicam tanto tempo a investigar determinados pontos e por que alguns odores provocam reações tão particulares.
No fim das contas, quando um gato para, cheira atentamente e faz aquela conhecida expressão de boca aberta, talvez esteja fazendo algo muito mais sofisticado do que parece: descobrindo exatamente quem passou por ali antes dele.
